Apareces com acuidade 
envenenando minhas retinas
Em doses suficientes para me prender.
E repreendes minhas sensações convencidas de desesperança,
Ainda que sejam convencidas;
As convencidas acuidades das minhas sensações,
Ainda que sejam de certeza.

Nossa canção de confinamento,
Nossa pausa racionalizada,
O intervalo de inércia,
E a negação do ser.
Tudo isso nos abstraem
De um não pensar e de um não sentir,
Mas outros sentidos nos traem como dispositivos lúdicos...
Sons como prelúdio da festa,
Toques num coração cristalino que não pulsa,
Luas de memórias encostadas em bancos,
Bocas que incharam com o uso,
Tal qual perfume de um mar que não consigo sentir em mim.

E assim, como num brinde,
O sentimento em me se fez,
Quando diante do teu olhar,
Num gole mais audaz,
Estive condenada a te buscar
Para sempre.


A arte de te sonhar
É esquecer a emoção que sempre finge que sonha,
É romper com raciocínio que sempre distrai,
É olhar-te sem que sejas o vulto dos que assombram
E nem com a memória de nenhum lugar.

Vejo-te enquanto penso!
Se é praia nossas pegadas se apagam com as ondas
E não me emociono por ser normal.
Nem reflito sobre a velocidade do tempo
Pois, é abstrato e você real.

Não preciso falar ou te escutar
Pois se falo racionalizo e o sol se encolhe
E já é hora de nos deixar
E o vento ainda nem levantou tua blusa
Para tua tatuagem mostrar.

Teus olhos e sorrisos falam o não dito
E quando passas as mãos nos cabelos
Nunca sei se é vento ou aviso...

Nessas horas sempre paro de pensar.

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Magnetizados são nossos corpos tolos 
Que de dolo envolve-nos de espanto 
Atração, instinto e fome 
Rompem o que enfeita as cabeças dos santos. 

Não há como dizer "sim" 
Sem dizer "não" a outrem, 
Nem dizer "não" sem se perder. 
Não há claridade que cure  
O que no escuro nos faz adoecer.

Desejo é queda livre 
Para o espírito se perder 
E o mesmo se perde 
Por não deixá-lo acontecer.
  
Ganhamos se nos perdemos 
E sem nos perder, ganhamos. 
Quem poderá entender 
O céu e o inferno
Quando estão no mesmo plano? 








Estou confusa:
Que efeito em ti fez a lua?
Depois de tanto tempo...
Seria ainda eu?

Como num presságio sinto o odor de tuas súplicas
Mas, seriam por mim?
-Oh tempo, imensurável tempo,
Que podes passar para todos
Mas não possui o mesmo efeito sobre mim.

... E por ciúme, vaidade,  humildade, soberba ou temor...
Esse não saber o que não sei
E já sem forças e quase sem vontade
De querer saber e tão pouco não saber,
Visto trajes de cólera, altivez e melancolia
-Sem ao menos eleger o mais bonito ou o mais adequado-

Assim, ponho-me uma cética/crente
Entre o meio sorriso e o meio sentir
Ante o sonho e a intangibilidade
Que tua presença ausente me faz sentir.



Deixes-me partir,
Se não consegues deixar de trancar as portas.

Quanto de tuas vestes são vaidades?
Quantos rastros teus foram por mim perseguidos
Para que, ao fim, a alegria se envergonhasse,
As minhas horas não te beijassem,
E meu ser coroado fosse adornado de rosas tristes...

Grandes são os teus encantos
Que com palavras fazes pontes com o meu espírito
E consegue amamentar a dor - o nosso tédio-
Em um ópio homeopático que não possui moradia fixa.


Quem de nós poderia olhar uma determinada estação
E dizer que  foi mais nua que nós?
Fomos nós Sete vezes mais!
Sete vezes estive em posições favoráveis
Para te ver desfolhar as vestes...
...Estou a fenecer à míngua desse sentir...

A tua oratória é uma promessa  interrompida pela nossa realidade.
Ofertamos a um deus, por nós, deposto
Buscamos e não encontramos
Batemos e não entramos
O nosso amor pelos momentos sonhados
Sobrepõe aos vividos.

Onde estará o “nós”, mesmo que não exista?
Na poesia?
A cartase  dissipa-se depois de um tempo sentida
Numa fome que nunca sacia.

...Talvez, aí esteja à síntese da NOSSA agonia
Poemas são limitados.
Resguardados, coagidos, acanhados
Cujos dispositivos automáticos são sempre de opressão e de castigo.
Estaremos sempre aqui, condenadas a uma eternidade,
Mesmo depois que barqueiro sombrio nos coma...
Presas nestes versos estranhos por um amor atemporal.
Sem singularidade, sem nomes, sem  realidade
E sem saída.


Por que me chamas?
Não sabes, ainda que sabendo,
Que carrego no mais alto cume de mim
O gosto da nossa derrota,
E que ainda sou aquela que não quero ser?

Com que nó me prendes?
Nó das palavras?
-Não! Não só.
A minha matéria testemunha teu canto
Numa empatia que não consigo explicar

Em sonhos vieste a mim
E quando fui ao teu encontro
Palavras, das mais quentes
Notificaram o inferno de não te ter.


Ética-
"Porque nem tudo que eu quero eu posso.
nem tudo que eu posso eu devo.
e nem tudo que eu devo eu quero."


Gosto quando provocas
E o quanto sabes que me excitas!
Bem sei que não é certo que eu possua tua carne nua
E tão pouco terias a coragem, mesmo na noite escura,
(Cujos gatos são pardos) te libertar da miopia que te ofusca.

Sempre temerás a mim e eu a ti
Sempre te apegarás às lembranças
Mais do que as múltiplas possibilidades de um novo sentir.
Um “Não!” ou uma simples hesitação seria demais para ti.

Eu sei, também estou assim!



Não sei dimensionar em poesia o que se sente
E não se edita.
O que calha amenizar e com que calma...

O universo é tão entrópico quanto o meu.


Saudades são páreas de passados
Apelos vocativos de um rito que se inicia.
Quanto mais velas, mais claro ficam
Sem hesitação e sem pena nos ojerizam.

Tantas sombras pedem sangue, fitas e nos "zoomorfizam"
Trazem ópios, miragens, utopias,
Ao que sempre lhes damos
Cânticos, salves e vivas! 27/04/14


De lábios cerrados a grafia enigmática
Cai sob a mesa posta das definições desse ego.
Sofregamente cata as palavras o esmoleiro...
Sua visão apouca lhe mente luz
Em horas roubadas desse feito. (27/3/14)


Pelas narinas um suspiro estilhaça o canto mudo das borboletas
Em brisas imaginárias que existem, posto que pensa.
Implantes vertiginosos de alma e espaço
Cotovelos que  apoiam incertezas.

Sem saber como queres que te queira,
Suspendes passado como lareiras.
Faíscas caem sobre o teto do outro
Que arde sem saber o porquê queima.

Quando falas que muito dizes em teu calar,
São como janelas que abres para que te vejam.
- O que diria o outro, caso veja?
Decerto ficaria confuso
Sem saber o que desejas. (29/3/14)

Quando a imagem é uma invocação ínfera
Ao que longe voou e
Se instalou no espaço
Paralisado e recaído sobre o retrato
Cavas, sinais e sorriso
Sobre o travesseiro debruçado. (10/4/14)


Lembranças infestas,
Quem as anistiará?
Tenho dó das palavras
Dos burburinhos que elas atraem.
Suores vazam polens
Calafrios à carne crua
Sobre a consciência do pensar.

Vertigens fingem febre
E sob este céu,
Tantas formas criam nuvens.
Poesia emerge do atrito que antropofagia
Em cântaros de cabelos, olhos e respiração.
...Estimulada ao saber que não degluta só. (16/4/14)


Respiro cinzas,
Como ninguém mais nina,
Sufoco meus devaneios
E embalo-me ao canto mudo da memória
Tantos frustres desesperos.

A escrita, por mais alma que possa doar,
Apoia-se nas paredes do tinteiro
Um cansaço nina, míngua a vontade de estar perto.
E, por mais perto que outras vontades possam dar,
Ponho-me estrangeiro.

As cantigas tristes que o vento traz
Não são diferentes das que trago no peito
Todas falam de um tempo
Mas pouco trazem as linhas que liguem
As mãos ao berço.

Como uma aspiração nina, poderá viver de vento?
Até quando sobreviverá?
Talvez o tanto de Cucas que se pode suportar. (17/4/14)

A lembrança que tenho de ti
É uma flor sobre o meu peito
Ou a mesma despetalada entre teus dedos
...Palavras sem acinte...
Erguidas como totens
Em paredes páreas do meu ventre. (02/05/04)

Tiremos os trajes do Entrudo,
Todo o pó desses confetes.
Repousemos frívolos
E inconscientes de nós.

Desenganemos de nós, ó meu amor,
Assim como o jazz
E continuemos a viver sem ele.
Abandonemos os altares, pois tantos outros amantes
Deitaram-se neles em luxuriosas trevas ou luzes.
Então para quê santificá-los nós?

Que o nosso  afeto esteja coberto sob o manto biltre
Sem importar com as ramas mortas de suas raízes.
Sem definição, pois nunca nomeamos a ele,
Sem o outono de folhas pautadas da nossa solidão
A transformar em inverno nossos versos.
Sem efeitos borboletas
Que a nossa presença possuía.
Apenas o silencio que te cabe
e a dor muda que me pertence
Como veneno no estomago a nos embotar. (22/03/14)

"...E quando o susto passar
O que se vai fazer?
Você perde quando
Paralisa-se
E vai perder de novo se não
Se mexer
Isso eu sei..."

Paralisa- Pedro Veríssimo


Um sonho onde o leito são nuvens
E um agosto ao gosto da coincidência
Mira e erra a previsão
Tornando a figura alheia  uma presença afônica
Cujo apenas os braços estão abertos para um amplexo que acolhe.

Do ósculo que me roubaram em somnia
E o ósculo desperto que não roubei,
Tornou do sonho uma realidade desconcertante
Onde tortuosas ondas internas
Sequer ousaram lamber os pés do propósito.

Ao toque de um abraço vertical
Há um desmaio da coragem
Um ato fânero em que toda força subcutânea se desfaz
E a previsão de ser alvo de um ósculo
Nem um ósculo consegue dar. (18/05/14)


O tecido desse sentir
Reflete em mim um corpo histérico e autônomo.
Tantas emoções são o vermelho
Desse cálice suportável e ávido
E o ritual incansável das minhas mãos.

...Há um espasmo da sensação,
Um fazer orgânico nesse excesso de sentir
Que quando é triste, escorre da face uma lágrima
E uma figura me abraça por trás e me ajuda vestir 

Ao meio de mim estão todos os motivos
A esvair em gozo,  o peso dos sonhos e das vestes
Para serem segundos paliativos de contemplação abstrata
E inconsciente dormir sem que ter que sonhar. 19/05/14
Ao discernir que espera
Não provém esperança
Vago em olhos rasos
E mínguo o esforço para que me importe.

Assomam-se dias que o luto morre.
E nos raros que ainda agoniza,
É sob o julgo hormonal que se homizia.
Efeitos lunares e eclipses vulgarizam
O que doravante se dava em primazia.

Degluta ideia não tardaria
E triste, vejo o fim que enfim chegaria.
Passadas largas atravessam arcaica ponte
Que de velha não mais aguentaria.

Sob o lápis guiam significantes;
Infra-saberes postos sobre a tela;
Palavras limítrofes entre o lambuzar e a dolência...
E notas como rastros de um enunciado
Que já haviam dado os indícios bilíngues e biografemáticos
De quem me coloca como referência.

...Leitura de contrações onde inflamo e incido tudo...

Sigo intertextualizando e não ouso me culpar
Pelo ser inanimado do ventre amorável,
Pois também sou mãe e também tenho engravidado.
-Gêmeos siameses de corpos separados-

...Mas ao consternar-me com as batidas que meu âmago emana,
Dos momentos memoráveis e estáticos que giram fâneros em consciência.
Das lembranças Fênix onde as mágoas não mais atormentam,
Lembro-me de um nós e lembro-me das flores,
Contudo, o futuro de nada como pressuposto
Pelo “mais” que fomos expostos,
São os algozes famintos que a vida mostra sem pena.

Amores órfãos e pagãos da indiligência de um sentir mútuo,
Onde no símbolo do infinito se manifesta:
Pais, eis os teus filhos- Filhos, eis os teus pais.

Íngreme em quimeras vi anoitecer
Saltos de luzes iguais a mim e você
Ingratos tons, meio azuis, no céu tecer
Salvos nós? Não, nem eu nem você.

Diante do melhor anfiteatro que se pode ter
Entre banco e tapume o leito se fez...

Pairavam em nós venetas volúpias,
Às claras para nos esconder,
Uns viam, outros voltaram para ver.
Lá íamos fundidas em verde
Até que o fim viesse amadurecer.

Isola-se isótopo  
Ao bulhar quer que comece. 
Molha irracional eiva, 
Teias encobre treze, 
Gargalhando o que tem perto. 
Tenta cem naus  que rompa
a Corda mixórdia gôndola.


Pousa em mim um elemento
Que no arrebol azafamava
Olho-o incompleto e abortífero
O seu ruído incomoda,
Mas lhe digo que passa.

Seus olhos escarlate me fitam
Em inanimadas imagens enquanto durmo
E ao acordar lhe ponho de castigo
Digo que sei que existe
Mas o cilício não cabe no meu mundo.

Ele balança seus cabelos negros
E o cheiro toma todo o lugar
Chega a arrepiar meus pelos
Digo-lhe: isso não vai adiantar.

Novamente ele quer falar.
Abro a porta e digo que aqui não é o lugar
E que só poderá me incomodar enquanto durmo,
Pois desperta vigiarei para ele não entrar.

Ele toca meu rosto e barafustado tenta me beijar
Cerro meus lábios, no pavor de o sentir chegar...
Num átimo ele se põe prostrado
E entre lágrimas balbucia melodioso para ficar.
Digo que não posso que não o acho crível
E que me deixe em paz.

... E assim um orvalho de pena saltam meus olhos
E antes que eu pudesse deter lhe molham os lábios
Que ele o põe a chuchar...
Seus olhos agora de um marrom difuso
Acompanham seu sorriso translúcido.
“Biltre!Biltre!Biltre!...” o chamo sem parar...

Ele se vai vitorioso, pois sabe que voltará.

Fímbria na fronte pequenas chuvas negras
Que meus dedos ousaram tocar
Fecho os olhos para lembrar dos dela
Marrons tons, quase laranjas, como Topázios Imperiais.

Flanei quanto pude flanar
A baixa grama fincava-me o rosto
Quando pousava devagar
Colada sua face sobre a parede fria
Que não ousei prensar.

Penso nas minhas orelhas
Que lhe pareciam especiais 
Da língua quente a rodopiar nelas
À medida que ofegava mais.

Lembro-me do corpo de azeviche sinais
E os contidos gemidos que da fauce são sai
De todas as agruras que real lhe faz
Longe dos mitos dos seus ancestrais.




"Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. […] Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite. Estas páginas, em que registro com uma clareza que dura para elas, agora mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando sinto? Que coisa morro quando sou?" L.doD.


O que fomos nós na penumbra do quarto, de porta aberta,
Com janelas por sobre nossas cabeças
Com vista a lugar nenhum?
O que dividíamos no espaço estreito
Na ausência de sons, apenas ruídos?
Quem foste tu em mim, na proximidade de nossos corpos
A me por consciência física e aguçar-me os sentidos?
O que fui para ti em despudores, em palavras, gestos, cores...
E no meu contato próximo aos teus  tímpanos?
O faremos de nós?
O que de nós será feito?
O feito está em nós.
Entre nós está feito.
Mas e o porvir?
Onde isso limitará a nós?
Até onde expandiremos nós?
Que intervalo há entre mim e ti e o tudo?
Não sei...não sei...não sei...
O que sabes tu, para que me digas?
Serva sou das minhas interrogações de nulas certezas.

No ônibus aprecio olhar pela janela.
O panorama são sempre pessoas, casas, estabelecimentos, ruas e vielas.
Mas o vento assanha meus cabelos,
Então fecho a janela.
A imagem já não é tão nítida,
Tudo lá fora embaça.
Tudo menos teu sorriso que vejo refletido
Causando-me náusea.

Nem todos os dias te vejo
E em mim nem sempre te anuncias,
Pois o desejo sem tua imagem definha.
Tempo perdido... entulhos sem serventia.
Então os coloco ao vento fresco
A secar junto as minhas roupas no fim de semana
Suspensas no varal de arame farpado
Que são todos os meus devaneios.
Mas nada disso tem êxito quando te vejo.

Um dia da cadeira alta e solitária abdiquei
No vidro já não te revelavas,
Mas olhando pra frente
Vi teus olhos que me procuravam.
(Me procuravam e me achavam)
E do jeito que olhavas,
Solícita os meus te dei.

Tenho os meus desenganos
Que a vida não me censura.
Ao te olhar me vejo por dentro
A revelar toda essa loucura.

Não me olhes mais e eu tentarei não te ver
És jovem e nunca irás entender
Que beijarei teus lábios,  tuas costas e partirei.
O que pode ser insuficiente para ti,
Sem dúvida pra mim não há de ser.

Meu Deus, afasta de mim estes olhos jovens
Que de tão cândidos devem permanecer.
E todos os meus desejos mantenha-os castos
Pois não há nada mais que posso oferecer.



Vejo a praia que és tu
Em ondas a tatear, me buscar e recuar.
Vejo a lua que também és tu
Que de cheia começa a minguar,
E que já não inspira o violão;
Nem os trovadores;
Nem as senhoras, nem os senhores;
Nem mesmo os lobos;
Nem as sereias;
Nem o mar.

Vejo a relva que foste tu
A esverdear e secar.
O sol que também foste tu
Que vivia a me acalentar,
E que agora queima a cera que liga as penas que roubei dos pássaros para te alcançar.

Vejo-me triste a definhar
Tal como as folhas de outono
Que caem para o inverno chegar.
Vejo-me como um fósforo riscado;
Um cigarro frio;
Um marinheiro sem navio;
A fé que não sabe acreditar.

Mas o que és e o que foste pouco importa
O que serás há de ser meta.
As lembranças lançarei aos pombos para alimentá-los
E o meu amor asfixiado ficará.
Tudo para te transformar na memória inútil
De um amor que não soube durar.


Você colheu uma rosa louçã
E eu estava a dois passos do teu peito,
Dez graus abaixo da volúpia,
E a um centímetro de me perder.

Tu que despertas essa chama
E que me arrepia os pelos,
Que coloca insone e inquieto o leito
E que nunca me toca
-a não ser em devaneios-
Que untam-me sempre de corpo inteiro.

A rosa em tuas mãos se torna ordinária
Tudo que é belo diante de ti não te embuça
Pois ante teu cheiro qualquer rosa sânie
É a ti que todos buscam...

Queria ser a rosa que colhes
E em tuas narinas deixar meu cheiro
Em tua memória o meu encanto
E dos meus espinhos te furar os dedos.

És a rosa que não se colhe,
Mesmo assim te quero pra mim.
Para que minha vida não seja mais aziaga
Para que possas colorir meu jardim.




Tens a façanha de produzir sorrisos
E de teu corpo maduro a substância de desejos contidos
Tuas palavras são como indícios de um ser narciso 
E teus cabelos como de Medusa a lançar feitiços.

Teu cheiro passa e fica 
Segredados em minha memória alada
Tens por vezes olhos que de tão tristes
Impulsionam-me as lágrimas.

Tinha costume de olhar-te meses a fio
Sem ousar proferir as palavras
E quando fiz conheci o vazio
Que só tua presença sarava.

Viciei, me cortei e até sofri
E hoje por mais que queira livrar-me
A vida me impõe a ti.

Seja qual for a magia que exerces 
Livra-me, poupa-me sentir.
Que não és para ninguém e tão pouco para mim
Então te exorto desprega-te de mim.

Nada que delimitem no tempo ou situem no espaço
Tem a força dos teus passos largos,
As flores colhidas em teu regaço
E som da tua voz naquele momento.

Teu corpo pinta o que é belo
Tua boca profana o incurável
E alto infringido pecado
Que fugiu de ti sem a força do acaso
Mas fruto de uma decisão que não conseguiste manter.

E assim me puseste longe 
E fizeste por onde meu amor abdicar
E agora sofres teu feito
Que os anos não fizeram aplacar.

Pegas meu desejo ainda inflamado
Exigindo respostas de imediato
E prometendo a mim dedicar...
E a ti olho com olhos laços
Sem saber o que falar.

O meu ego dilacerado com as lembranças do passado
Pensam no mal já amenizado 
Nas lágrimas esgotadas,
Nas noites mal sonhadas
E nas sombras que tive que me lançar...

Era pra(z)ser sem fim
Meu amor guardado, mudo
Inerte, mas não nulo
Não sabe o que te ofertar.
Minha cara, talvez,
e somente talvez,
Te queira para sonho e não para te amar.